Sites de dopamina tiram a vontade de comprar? Testamos

Carrinho cheio, cupom aplicado, pagamento aprovado e entrega a caminho, mas nenhum produto será cobrado ou recebido. Essa é a proposta dos sites de dopamina, plataformas que simulam compras para oferecer parte da sensação de consumir sem gerar um gasto real. Na prática, elas não diminuem necessariamente a vontade de comprar: podem apenas adiar o impulso ou até reforçá-lo, dependendo da experiência e do perfil do usuário, como constatou o TechTudo após testar três serviços disponíveis na internet.
A análise percorreu todas as etapas do Dopamine Shopping, do Food Only Doesn’t Come e do Dopamine Shop, desde a escolha dos itens até o recibo ou a falsa entrega. Os resultados foram confrontados com a avaliação de Gabriela Inthurn, psicóloga, professora em Psicologia na UNIASSELVI e especialista em Neuropsicologia e Psicopedagogia, que explicou quando a simulação pode funcionar como redução de danos e quais sinais indicam que o comportamento exige atenção profissional.
Sites de dopamina são plataformas que reproduzem diferentes etapas de uma compra online, mas sem cobrar dinheiro ou entregar produtos. Dependendo do serviço, é possível pesquisar itens, comparar preços, adicionar produtos ao carrinho, escolher uma forma de pagamento e acompanhar uma entrega fictícia. O nome faz referência à dopamina, neurotransmissor associado aos mecanismos de motivação, expectativa e recompensa.
A tendência ganhou visibilidade primeiro na Coreia do Sul, com o Food Only Doesn’t Come, serviço que imita aplicativos de delivery. Depois, plataformas como Dopamine Shopping e Dopamine Shop passaram a reproduzir marketplaces com roupas, eletrônicos, cosméticos, carrinho e falsas entregas.
Para avaliar a experiência na prática, o TechTudo testou os três serviços. A navegação começou na página inicial e seguiu até a conclusão de cada pedido fictício, passando pelo catálogo, escolha dos itens, personalização, carrinho, pagamento, recibo e rastreamento, quando disponíveis. Os critérios observados incluíram experiência, realismo, diversão, facilidade de uso, sensação de compra, redução do impulso e risco de estímulo.
O Dopamine Shopping reproduz a estrutura de um e-commerce tradicional e reúne ofertas relâmpago, campo de pesquisa e categorias como moda, beleza, tecnologia e games. Durante o teste, foram adicionados itens ao carrinho e a sensação de compra aumentou no checkout, que mostrou opções fictícias de Pix, cartão e boleto. A gamificação incentivava a realização de novos pedidos para acumular pontos.
O Food Only Doesn’t Come é uma plataforma sul-coreana que reproduz a experiência de pedir comida por delivery. No teste, foi escolhido um frango, com opções de tamanho e acompanhamentos. Um motociclista virtual iniciou o trajeto, com previsão de chegada em sete minutos. A experiência foi divertida, mas as imagens e o rastreamento aumentaram a vontade de pedir comida de verdade.
O Dopamine Shop simula um marketplace e aposta em caixas surpresa, divididas em opções padrão, premium e lendária. Durante o teste, foi aberto o "cofre lendário", que exibiu uma animação antes de revelar um produto. A ausência de imagens no catálogo tornou evidente que os produtos não eram reais, e a finalização foi rápida, sem pagamento, endereço ou rastreamento.
Os testes indicam que os sites de dopamina não diminuem necessariamente a vontade de consumir. Gabriela Inthurn explica que, em alguns casos, a satisfação não está ligada ao item escolhido, mas à própria experiência de adquirir alguma coisa. "Quanto mais próximo da experiência da compra, maior a chance da pessoa querer reproduzir", afirmou.
Segundo a especialista, o uso frequente dos simuladores pode representar uma nova dependência ou uma continuidade do mesmo comportamento de compra, apenas sem a transação financeira. Apesar da crítica, ela reconhece que esses sites podem diminuir o prejuízo financeiro em situações específicas, funcionando como uma espécie de "redução de danos".
Sites de dopamina podem valer como entretenimento ou como uma forma pontual de evitar um gasto, mas não devem ser vistos como uma solução para compras impulsivas ou compulsivas. Em casos de descontrole financeiro, a simulação pode funcionar como uma estratégia de redução de danos, já que permite repetir parte da experiência sem gerar uma dívida. A primeira recomendação da psicóloga é buscar ajuda profissional para compreender o que está por trás da necessidade constante de comprar.