Queda na nota de Matemática reacende debate sobre ensino no Enem

Seis pontos. Foi esse o tamanho da queda na média nacional de Matemática do Enem 2024, que recuou de 535 para 529, segundo dados divulgados pelo MEC/Inep. O número parece pequeno diante de uma escala que vai até mil, mas ele vem acompanhado de outro indicador bem mais incômodo: a nota máxima registrada no ano foi de 962 pontos, e a mínima, 334. Entre os dois extremos cabe praticamente toda a desigualdade educacional brasileira.
A queda reacendeu uma discussão que professores de rede pública e privada repetem há anos. Matemática não é apenas a área com pior desempenho médio no exame. É a mais desigual delas. Nesse caminho, vale avaliar um aula de revisão de matemática para o ENEM antes de decidir.
O que os microdados do Enem 2024 revelam sobre a dispersão das notas
Análise dos microdados oficiais do Enem 2024 mostra que a dispersão, mensurada pelo intervalo interquartílico (IQR), varia de forma dramática entre as áreas avaliadas. Matemática apresenta o maior IQR, 182,1 pontos, mais que o dobro do IQR de Linguagens, de 84,0 pontos.
Traduzindo: em Linguagens, a maioria dos candidatos se amontoa numa faixa estreita de notas. Em Matemática, a distância entre quem está no primeiro quartil e quem está no terceiro é tão grande que praticamente separa duas populações distintas de estudantes dentro da mesma prova.
Essa característica tem consequência direta na disputa por vagas. Como o Enem usa Teoria de Resposta ao Item, acertos em questões difíceis pesam mais. Numa área onde as notas se espalham tanto, cada acerto adicional desloca o candidato muito mais na classificação do que aconteceria em Linguagens.
Por que poucos temas concentram a maior parte das questões
Levantamento da Aprova Total sobre todas as provas já aplicadas do Enem identificou que cinco temas, matemática básica, estatística, geometria espacial, funções e geometria plana, respondem por 77,6% das questões da área. Só matemática básica e estatística somam quase metade da prova, com matemática básica representando 37,3% do total.
O dado explica por que cursinhos de São Paulo a Belém passaram a organizar cronogramas por incidência, e não por ordem de livro didático. A lógica declarada pela própria Aprova Total é direta: como cinco temas concentram mais de 75% das questões, dominar bem esses conteúdos já garante um bom desempenho, mesmo sem cobrir todos os assuntos com a mesma profundidade.
Na prática, isso significa abrir mão de perseguir conteúdos de baixa recorrência nas últimas semanas de preparação. Um estudante que ainda erra regra de três e leitura de gráfico não deveria estar gastando sábados com tópicos que aparecem uma vez a cada três edições.
Os levantamentos divergem sobre qual tema lidera
Comparamos quatro mapeamentos e o resultado foi menos consensual do que o discurso dos aplicativos de estudo sugere.
Estudo da plataforma SAS Educação, citado pela CNN Brasil, mapeou todas as provas realizadas entre 2009 e 2024 e colocou proporcionalidade direta e indireta na liderança, com 213 questões, seguida de estatística, com 187, e geometria plana, com 110.
Já a Tessat analisou 2.880 questões das provas de 2010 a 2025 e chegou a outro recorte: o tópico mais cobrado do Enem seria tabelas e gráficos, com 45 questões, equivalente a 6% de Matemática, dentro do campo de estatística e probabilidade. O mesmo estudo registra que a disciplina de maior peso é Matemática, com 721 das 2.880 questões analisadas, e que 33 de 70 tópicos cobrem 81% dessas 721 questões.
Ao contrário do que parece, a divergência não invalida os dados. Ela vem da forma de classificar: uma questão que pede média ponderada a partir de um gráfico pode ser contada como estatística, como leitura de tabela ou como matemática básica, dependendo do critério. Quem procura os conteúdos de matemática que mais caem no enem precisa olhar a metodologia antes de confiar no ranking, porque dois estudos sérios podem apontar primeiros colocados diferentes sem que nenhum esteja errado.
O consenso existe, e é mais importante que o pódio: matemática básica, estatística e geometria, plana e espacial, formam o núcleo recorrente da prova em todos os levantamentos consultados.
O mapa regional das notas de Matemática
Levantamento sobre os microdados oficiais do Enem 2024 mostra concentração geográfica nas melhores medianas. São Paulo lidera Matemática com 538,0, a única área em que o estado ocupa a primeira posição. Espírito Santo aparece em segundo, com 535,0, e Santa Catarina em terceiro, com 533,5.
O detalhe mais revelador está na base do ranking. O gap entre o primeiro colocado, São Paulo com 538,0, e o décimo, Rio Grande do Norte com 495,2, é de 42,8 pontos, o maior entre todas as áreas do exame.
Todos os estados do top 10 pertencem ao Sul, Sudeste ou Centro-Oeste, incluindo Distrito Federal e Mato Grosso do Sul. O Rio Grande do Norte é a única exceção fora desse eixo. Nenhum estado do Norte aparece na lista.
- São Paulo: mediana de 538,0, primeira posição nacional em Matemática
- Espírito Santo: 535,0, segundo lugar
- Santa Catarina: 533,5, terceiro lugar
- Rio Grande do Norte: 495,2, décimo lugar e único representante do Nordeste no grupo
Para um estudante de Manaus ou de Macapá, esse recorte importa menos como estatística e mais como diagnóstico. A diferença não nasce no dia da prova. Ela se acumula ao longo de anos de defasagem em aritmética e proporcionalidade, justamente os conteúdos que mais aparecem no exame.
A crítica acadêmica ao modelo de avaliação
Nem todo educador aceita a lógica de estudar por incidência. Pesquisa publicada em bases acadêmicas como SciELO e Redalyc analisou a presença da estatística nas provas de 1998 a 2018 e concluiu que o Enem, nos parâmetros em que está organizado, não pode ser seu elemento mobilizador, pois carece de elementos críticos, reflexivos, problematizações e contextualizações, impulsionando uma formação acrítica.
A objeção é relevante e merece ser dita sem suavização: otimizar o estudo pelo mapa de incidência resolve o problema do vestibulando, não o da educação básica. São coisas diferentes, e misturá-las produz escolas que treinam padrão de questão em vez de ensinar raciocínio.
Professores da rede estadual do Ceará e de Pernambuco, estados com tradição em políticas de aprendizagem, convivem com essa tensão todos os anos. O calendário obriga a preparar para a prova. A formação exige ir além dela.
Como transformar os dados em rotina de estudo
O erro mais comum é tratar matemática básica como conteúdo de reforço, algo para resolver em duas horas de revisão. Com 37,3% das questões segundo a Aprova Total, ela é o eixo da prova, não o rodapé.
Quem estuda sozinho em cidade sem cursinho presencial, situação comum no interior do Maranhão e de Rondônia, pode montar o cronograma pela recorrência e usar vídeo como apoio. Assistir a uma aula de revisão de matemática para o ENEM funciona melhor depois de tentar resolver as questões, não antes, porque o cérebro retém mais quando já tropeçou no problema.
Um caso concreto ajuda a entender o peso da leitura de dados: uma questão que apresenta a tabela de consumo de energia de uma residência e pede a variação percentual entre dois meses cobra três habilidades ao mesmo tempo, interpretação de tabela, porcentagem e proporcionalidade. É o perfil que aparece com mais frequência nos levantamentos da SAS Educação e da Tessat.
O que fazer com essas informações
Candidatos que pretendem usar os dados de incidência como bússola podem seguir alguns passos objetivos:
- Fazer um diagnóstico com questões reais de edições anteriores, separando acertos e erros por tópico, antes de montar qualquer cronograma.
- Priorizar matemática básica, estatística, proporcionalidade e geometria plana, os temas que lideram em todos os levantamentos citados, mesmo quando divergem na ordem.
- Reservar blocos semanais fixos para leitura de tabelas e gráficos, item que a Tessat registrou com 45 questões entre 2010 e 2025.
- Resolver provas completas cronometradas, porque o IQR de 182,1 pontos em Matemática indica que a gestão de tempo separa faixas de desempenho muito distintas.
- Checar a metodologia de qualquer ranking de conteúdos antes de adotá-lo, verificando o período analisado e o critério de classificação dos tópicos.
Escolas e redes públicas que acompanham o indicador têm outro uso possível para os microdados do Inep: comparar o desempenho dos próprios alunos com a mediana do estado e identificar em qual tópico a defasagem começa. O recuo de seis pontos na média nacional de 2024 é um sinal agregado. A resposta, essa, só aparece no detalhe de cada turma.
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