Nolan falha ao interpretar a 'Odisseia
Em uma crítica contundente publicada na Folha de S.Paulo, o doutor em ética e filosofia política Martim Vasques da Cunha afirma que a versão cinematográfica de Christopher Nolan para "A Odisseia", de Homero, é um "desastre completo". Para o autor, o filme falha não apenas tecnicamente, mas representa um sintoma grave do que ele chama de "extinção da memória".
Segundo Cunha, a produção sofre com uma montagem canhestra, fotografia sem brilho e trilha sonora automática. As atuações do elenco renomado também são criticadas: Matt Damon (Odisseu) não convence, Anne Hathaway (Penélope) faz "caras e bocas", e Samantha Morton (Circe) é desperdiçada. O autor também menciona rumores de que Elliot Page e Lupita Nyong'o teriam sido escalados para interpretar Aquiles e Helena de Troia por pressão de políticas de diversidade de Hollywood, resultando em atuações sem emoção.
O problema central, para o crítico, não é a "cultura woke" ou o progressismo, mas o "analfabetismo funcional" do diretor. Cunha argumenta que Nolan substitui a memória da tradição homérica por uma versão própria e rasa. No filme, Penélope insinua querer tomar o lugar do marido, Telêmaco perde a nobreza e Atena é retratada como uma manifestação de estresse pós-traumático.
O autor alerta que, em um futuro próximo, os jovens conhecerão a obra de Homero apenas por meio deste filme e de outras produções "bastardas", perdendo a noção de hierarquia e maravilhamento. Para ele, a "Odisseia" de Nolan é um "naufrágio artístico" que contribui para o fim da própria sociedade, pois o diretor se preocupou mais com o mecanismo das histórias do que com o espírito que as fundamenta.
Cunha conclui que, embora o tema do crepúsculo de uma civilização esteja presente na obra de Nolan, o cineasta se tornou parte do problema que tenta diagnosticar. A crítica sugere que o sucesso anterior do diretor com filmes como a trilogia "Batman", "Dunkirk" e "Oppenheimer" lhe deu carta branca, mas que, com Homero, seu vício por mecanismos narrativos se tornou um "pecado mortal".