Manchester rejeita Palantir na saúde

O governo do Reino Unido tem seis meses para decidir se encerra um contrato de mais de US$ 400 milhões entre o serviço público de saúde do país, o NHS, e a empresa americana de software Palantir. Políticos questionam: se uma parte do NHS já funciona sem a Palantir, por que o resto do país não pode?
Em 2023, o Reino Unido contratou a Palantir para desenvolver uma “plataforma federada de dados” (FDP) que organizasse os dados de saúde produzidos em todo o país. Segundo a empresa e o NHS, o novo sistema já reduz filas de espera e o tempo de internação, além de otimizar o uso de centros cirúrgicos.
Recentemente, o uso da tecnologia da Palantir em zonas de guerra e na política de imigração do governo dos EUA transformou o contrato com o NHS em um ponto de conflito no Reino Unido. O caso gerou protestos, petições, investigações parlamentares e uma rebelião entre funcionários do NHS. Outros países europeus, em desacordo com o governo Trump, também revisam suas relações com a empresa para diminuir a dependência de tecnologia americana.
O conselho de saúde da Grande Manchester, uma região da Inglaterra, recusou repetidamente adotar a FDP da Palantir. A região mantém uma plataforma própria, desenvolvida ao longo de quase uma década. O conselho afirma que não precisa da Palantir e que sua plataforma é superior e mais confiável para o público. “Uma plataforma tecnicamente forte terá dificuldade em gerar valor se médicos, gestores de dados, pacientes ou o público não confiarem nela”, diz Matt Hennessey, diretor de dados e análises do NHS na Grande Manchester. “Adotar a FDP seria um passo atrás.”
Essa afirmação, contestada pela Palantir e por defensores da FDP, alimenta o debate nacional sobre o governo usar a cláusula de rescisão do contrato em fevereiro, em vez de manter o acordo até 2031.
Há décadas, funcionários do NHS usam sistemas digitais, planilhas, papel e quadros brancos para acompanhar pacientes. Quando um paciente muda de unidade de saúde, o prontuário pode ficar para trás, com consequências às vezes fatais. Sem uma forma eficaz de compartilhar informações entre diferentes prestadores de cuidados, os administradores do NHS baseiam decisões de financiamento em dados incompletos. A FDP da Palantir foi criada para resolver isso.
A implantação da FDP começou no início de 2024. A plataforma reúne um banco nacional de dados de saúde para identificar falhas no atendimento e bancos de dados locais para análises e ferramentas específicas de cada região, como gestão de filas ou planejamento de altas. Os componentes compartilham a mesma base tecnológica, o que permitiria que ferramentas criadas em uma região fossem usadas em outra. “É possível copiar e transferir. Esse é o poder da FDP”, diz Tom Bartlett, consultor independente de TI que supervisionou a implantação nacional. “Outra vantagem é ter uma superfície para a inteligência artificial atuar.”
No NHS, dois tipos de organização acessam a FDP: os trusts, que administram hospitais e atendimento local, e os conselhos integrados de saúde (ICBs), responsáveis pelo planejamento regional. Dados do NHS mostram que 139 dos cerca de 200 trusts usam a tecnologia da Palantir, e 35 dos 36 ICBs da Inglaterra estão ativos no sistema. “Milhares de pacientes se beneficiam da FDP todos os meses”, diz um porta-voz do Departamento de Saúde.
Mas na Grande Manchester, a resistência é clara. Fontes afirmam que os trusts locais usam a FDP apenas para fins limitados. “Não estão aderindo totalmente”, diz Andy Haywood, diretor de dados do Health Innovation Manchester. “Nos registros, constam como usuários, mas não colocam todos os dados na plataforma.” A Palantir afirma que os trusts da região usam a FDP extensivamente. A Grande Manchester é a única região cujo conselho de saúde recusou categoricamente adotar a plataforma.
Em vez disso, o conselho local, que atende cerca de 3 milhões de pessoas, mantém sua plataforma própria, chamada ADSP. Em maio de 2025, mesmo sob pressão do NHS nacional, o conselho concluiu que a “capacidade local supera qualquer coisa que a FDP oferece” e que algumas funções estão “dois ou três anos” à frente. A ADSP recebe dados de atenção primária que não estão na plataforma da Palantir e, por ser desenvolvida internamente, pode ser reconfigurada com mais facilidade. “Se o software de visualização de dados ficar ultrapassado, podemos trocá-lo”, diz Hennessey. A ADSP também teria mais confiança do público, o que estimula o compartilhamento de dados sensíveis.
A Palantir afirma que não há evidências de que a ADSP tenha melhorado o atendimento ou reduzido custos, e que sua plataforma é amplamente confiável. “Milhares de médicos e enfermeiros usam a FDP e relatam seus benefícios”, diz Stephen Childs, diretor de parcerias de saúde da Palantir no Reino Unido. A alegação da Grande Manchester, no entanto, influencia o debate sobre o governo britânico romper o contrato em fevereiro.
Em junho, um grupo bipartidário de políticos publicou um relatório alertando que a dependência da Palantir é um “ponto inaceitável de fragilidade”, dando a um único fornecedor estrangeiro grande poder. O relatório defendia o uso da cláusula de rescisão e a busca por alternativas domésticas. Em julho, um comitê parlamentar fez argumentos semelhantes, com base no depoimento de Hennessey. “A Palantir não é a única opção”, disse a deputada Layla Moran.
Defensores da FDP argumentam que não há alternativa viável à Palantir para integrar dados de todo o país e das várias partes do NHS. Eles dizem que as críticas se baseiam em uma avaliação limitada do valor da FDP para os conselhos de saúde e ignoram seus benefícios em hospitais. “A alegação de que a ADSP alcança resultados superiores não faz sentido. A FDP faz coisas completamente diferentes”, diz Bartlett. “Tratar o caso como análise de dados é uma distorção do objetivo do produto.” Hennessey responde que a Grande Manchester só afirmou que sua tecnologia é superior à da Palantir no contexto de um conselho de saúde, não em todo o NHS.
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