Dados de IA viram treino: como proteger sua privacidade
Embora pareçam banais, os prompts enviados a chatbots de inteligência artificial, como ChatGPT e Gemini Google, ajudam a alimentar os sistemas dessas ferramentas, que aprendem com os próprios usuários. A popularização da IA no dia a dia das pessoas levanta debates sobre o que acontece com as informa

Embora pareçam banais, os prompts enviados a chatbots de inteligência artificial, como ChatGPT e Gemini Google, ajudam a alimentar os sistemas dessas ferramentas, que aprendem com os próprios usuários. A popularização da IA no dia a dia das pessoas levanta debates sobre o que acontece com as informações compartilhadas nessas conversas sobre vida pessoal ou profissional.
IA aprende com o que você escreve
Segundo um estudo do National Bureau of Economic Research (NBER) chamado “How People Use ChatGPT”, os usuários acessam a ferramenta para questões que vão além da vida profissional. Mais de 70% das interações com o chatbot em 2025 não eram relacionadas ao trabalho, mas sim à vida pessoal, com comandos sobre aprendizado e tomada de decisões. O levantamento revela que aproximadamente metade das conversas com a IA envolve usuários buscando orientação ou ajuda para estruturar problemas, destacando o papel dos chatbots como uma espécie de “copiloto cognitivo”. Esse tipo de interação constante contribui para refinar as respostas, já que os sistemas são projetados para reconhecer padrões de uso e linguagem.
Seus dados viram “combustível” para a IA
O uso crescente das IAs na vida pessoal acende um alerta sobre os dados compartilhados. As empresas de tecnologia utilizam essas informações, que incluem textos, comandos, imagens, documentos e arquivos, para treinar e aprimorar seus modelos. Os dados ajudam algoritmos de aprendizado de máquina a identificar padrões, interpretar imagens, fazer análise preditiva, entender linguagens e personalizar experiências. Segundo Kenneth Corrêa, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em dados, os usuários podem estar fornecendo “combustível” a todo momento, principalmente em contas gratuitas, em que as conversas podem ser usadas para evolução dos sistemas. Ele afirma: “Quando você se cadastra no ChatGPT, habilita o Gemini, ou mesmo se estiver usando o DeepSeek, lembre-se que na sua conta gratuita todos os conteúdos de conversa podem estar sendo utilizados para treinar novos modelos de inteligência artificial.”
Riscos vão além do uso pessoal
O estudo do NBER também aponta que, no trabalho, cerca de 80% das interações com IA estão voltadas à análise de dados e tomada de decisão. Isso pode gerar compartilhamento expressivo de dados sensíveis de terceiros, como empresas parceiras e clientes. Kenneth Corrêa relembra que o uso indevido de dados de terceiros pode violar a legislação brasileira, citando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). “Dados pessoais de outras pessoas, outros usuários, também não devem ser compartilhados”, afirma.
Big Techs já enfrentam processos
O uso indevido de dados e a violação de direitos autorais colocam gigantes como Microsoft, Meta e Nvidia no alvo de ações judiciais em vários países, sobretudo por treinamento de modelos de IA sem consentimento explícito. Kenneth Corrêa aponta que as empresas foram treinadas sem autorização explícita dos websites e dos donos dos dados, e agora há ações contra elas. Segundo o site ChatGPT is eating the world, os Estados Unidos lideram com 51 ações até setembro de 2025 contra ChatGPT e OpenAI. Outras empresas como Microsoft, Perplexity AI, Tesla, Nvidia, Meta e Anthropic também aparecem na lista. Nos EUA, escritores abriram processo contra Meta, OpenAI e Anthropic, alegando uso de obras protegidas sem permissão. Uma ação coletiva acusou Microsoft e OpenAI de usarem quase 200 mil livros piratas no treinamento.
Como usar IA com mais segurança?
É possível usar assistentes de IA de forma mais segura com medidas simples. A principal é evitar compartilhar dados sensíveis como CPF, endereço, informações bancárias ou médicas. Também é importante não expor dados confidenciais de terceiros e anonimizar informações sempre que possível. Kenneth Corrêa explica que biografia, currículo ou fotos já em redes sociais provavelmente foram usados no passado para treinar modelos. Versões pagas oferecem ambientes mais protegidos, mas não eliminam a cautela. Outro ponto é reforçar a segurança das contas, já que vazamentos ocorrem por senhas fracas ou invasões. Dicas incluem: evitar compartilhar dados sensíveis, não informar dados de outras pessoas, anonimizar informações, dar preferência a conteúdos já públicos, usar senhas fortes, ativar autenticação em dois fatores e compartilhar dados pessoais apenas com autorização explícita.